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Cantares mexicanos: tradução e patrimônio cultural
Sara Lelis de Oliveira

Última alteração: 02-01-2021

Resumo


Este trabalho discute a tradução inédita para o português de um canto dos Cantares mexicanos [fls. 1f a 85f], manuscrito em náhuatl clássico confeccionado no período colonial da Nova Espanha com fins de catequização. O canto integra um conjunto de 24 cantos referentes às performances cantadas em honra aos governantes da Tríplice Aliança, última elite indígena a ocupar o poder antes da queda de Tenochtitlan (1521), bem como a deuses e deusas adorados pelos nahuas. A discussão centra-se nas possibilidades de produzir um texto traduzido que remeta ao patrimônio cultural da referida elite através dos rastros resistentes à escrita alfabética da língua indígena franca cujo nome é desconhecido. Os meios encontram-se na ação de traduzir, entendida aqui como uma operação relativa à linguagem privilegiada: ao se dedicar aos modos de significar da língua da qual se traduz, e não necessariamente a seus sentidos, a tradução acessa o Outro em sua própria cosmovisão e estabelece os limites para seu conhecimento na língua para qual se traduz. No caso dos Cantares, o ato tradutório revela cantos em uma língua indígena colonizada pelos valores ocidentais e religião católica com centelhas do que era pré-hispânico. A hipótese proposta é a de que o corpus em questão seja “nepantla” (do náhuatl, “em meio a”), vocábulo que aponta para um processo de assimilação da cultura ocidental e religião católica pelos indígenas que culminou na fusão de ambas tradições e sistemas de crenças. Surge, assim, a perspectiva de uma tradução para o português que possa resgatar algo do patrimônio oral indígena deturpado. Apresentaremos os limites desse movimento de recuperação no andamento atual da pesquisa, a qual propõe hipóteses para as antigas letras dos cantos com seus respectivos deuses.


Palavras-chave


Cantares mexicanos; patrimônio cultural; náhuatl clássico; português; tradução.

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