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Juventude geraizeira e educação do campo: uma estratégia de um ambiente politizado
Elis Medrado Viana, Isabel Cristina Barbosa de Brito, Clarissa Godinho Prates, Helen Daiane Santa Rosa

Última alteração: 20-10-2016

Resumo


RESUMO: O ambiente é um espaço em disputa. Atores diferentes atuam de acordo com seus interesses para colonizar a natureza a seu redor. A proposta desse texto é discutir um ambiente politizado, o ambiente indissociável das interações humanas e das correlações políticas e econômicas a partir da experiência dos jovens geraizeiros estudantes da educação do campo de Rio Pardo de Minas/MG. Apreciar as formas complexas das interações dos atores nos diversos níveis das questões ambientais coloca o poder no centro da questão como um lembrete de que as relações são desiguais, mas que não estão tácitas ou acabadas em si mesmas. O texto busca elucidar as principais tendências de abordagem do tema para assim identificar alguns apontamentos para a minimização de diferenciações sociais e suas relações de igualdade e equidade. É a partir dos espaços educacionais que esses jovens encontram lugar para se auto afirmarem, construir formas de empoderamento e contribuir para processos de construção democrática de ensino. A formação humana e a participação efetiva em espaços de discussão e construção coletivas vêm favorecendo ações de resistência frente a situações de discriminação e ocupação de espaços públicos na busca contínua de garantia de direitos humanos universais.

PALAVRAS-CHAVE: Ambiente politizado, Educação do campo, Empoderamento, Juventude geraizeira.

 

RESUMEN: El medio ambiente es un área en disputa. Diferentes actores actúan de acuerdo a sus intereses para colonizar la naturaleza que les rodea. El propósito de este trabajo es discutir un ambiente politizado, el medio ambiente inseparables de las interacciones humanas y las correlaciones políticas y económicas de la experiencia de la enseñanza a los estudiantes jóvenes geraizeiros campo Pardo Río Minas / MG. Aprecian las formas complejas de los actores en los diferentes niveles de las cuestiones ambientales pone el poder en el centro de la cuestión como un recordatorio de que las relaciones son desiguales, pero no se implica ni terminadas en sí mismos. El texto busca elucidar las principales tendencias de aproximación al tema con el fin de identificar algunas notas para minimizar las diferencias sociales y las relaciones de igualdad y equidad. Es a partir de las oportunidades educativas que los jóvenes encuentran su camino a la auto afirman, construyen formas de empoderamiento y contribuyen a procesos de construcción de la educación democrática. El desarrollo humano y la participación efectiva en los espacios de discusión y construcción colectiva han ayudado a acciones de resistencia en situaciones de discriminación y la ocupación de los espacios públicos en la búsqueda permanente de garantía universal de los derechos humanos.

PALABRAS CLAVE: Ambiente politizado, Educación rural, Empoderamiento, geraizeira juveniles.

 

  1. 1. Introdução

As comunidades geraizeiras estudadas nesse trabalho diz respeito às comunidades tradicionais que têm seu modo de vida em regiões de cerrado e assim usufruem desse bioma como forma de reprodução, de defesa e de convívio. Nesse caso, as comunidades geraizeiras estão situadas no norte de Minas Gerais, na região que engloba o Território da Cidadania do Alto Rio Pardo. Dentro desse território, destaca-se a atuação dos jovens de Rio Pardo de Minas/MG que vem se envolvendo nas questões voltadas para suas comunidades, no movimento geraizeiro e nas lutas das comunidades tradicionais da região.

A juventude está presente nos sindicatos e associações e tem se organizado em torno da Educação do Campo, movimentando a região e contribuindo para o movimento camponês local, para a formação das crianças nas escolas e para a dinamização das comunidades nas quais estão inseridos. As discussões vão além da educação, uma vez que para pensar a educação do campo é importante discutir também formas e condições de permanência do jovem no campo. Nesse sentido, a educação do campo tem servido como uma importante ferramenta para o empoderamento desse segmento que se envolve nas lutas cotidianas do campo e contribui para que as discussões dos problemas que afetam a todos tenham profundidade e amplitude de análise do contexto. Dessa forma, o ambiente politizado vai se constituindo e aos poucos, juntos vão buscando formas de minimizar as desigualdades sociais.

Para melhor compreensão do papel da juventude nesse processo de construção de um ambiente politizado, foram realizadas entrevistas semiestruturadas e análise situacional do I Seminário de Juventude Geraizeira e II Seminário de Educação do Campo do Alto Rio Pardo, além de observação participante do Curso de Formação de Jovens realizado pelo Centro de Agricultura Alternativa com jovens do Norte de Minas e Sudoeste da Bahia.

  1. 2. Desigualdades sociais e universidade

A origem das desigualdades sociais possui explicação no campo da filosofia na produção de Rousseau quando ele estabelece reflexões com a origem da propriedade privada. Para ele, quando o primeiro ser humano, dividiu ou cercou um espaço físico, afirmou ser sua posse e os demais que ali viviam, aceitaram esta proposição, a propriedade privada se instala. Toda a produção de insumos para a sobrevivência, todo o trabalho ali empregado passa a seguir a lógica da propriedade privada e configura-se a dicotomia público-privado, aparecendo assim alguns dilemas em torno da distribuição dos recursos. Nesta perspectiva, se estabelecem os grupos de gestores e os grupos de produtores da vida social, econômica, cultural e política. Em meio a disputas e conflitos tendo em vista o controle e o poder, desde as primeiras sociedades humanas, os indivíduos adotam formas de diferenciar e subjugar uns aos outros. Esta diferenciação vai produzindo e aumentando um quadro de desigualdades. (ROUSSEAU, 2008)

Estratificação social e desigualdade social são tidas como sinônimos e se definem de várias formas, marcando a realidade brasileira de forma expressiva e se apresentando como um fenômeno durável, com várias dimensões, e transversal, que comumente passa por escalas de prestígio, espaços de interação social e posição socioeconômica, considerando a relação entre renda e educação, pautando as condições de vida de cada um.

As relações e reproduções sociais tecidas na universidade e a busca incessante de uma construção democrática do espaço público é a tendência de abordagem nesse texto. A participação dos jovens geraizeiros de Rio Pardo de Minas nos espaços educacionais de educação do campo é uma perspectiva voltada para a minimização de diferenciações sociais e suas relações de igualdade e equidade. A escola ou universidade é um espaço de reprodução de relações sociais propícios para discutir as relações étnicas, a educação e a busca por dignidade e democracia.

É por meio da formação humana e das participações efetivas em espaços de construção e discussão coletivas que os jovens das comunidades tradicionais geraizeiras de Rio Pardo de Minas vêm resistindo às situações de discriminação, afirmando suas identidades culturais e étnicas e se projetando na ocupação de espaços públicos, se empoderando na busca contínua de garantia de direitos humanos universais.

No caso do espaço universitário, a estratificação começa com a ênfase dada à questão do status dos cursos superiores, onde a posição social se difere pelo que é atribuído à área de formação almejada, que automaticamente associa-se a visibilidade dada à rentabilidade profissional da categoria, o que reflete ainda na ampla concorrência para ingresso em alguns cursos da universidade, com uma supervalorização de alguns cursos em detrimento de outros, onde claramente se vê atribuição de prestígio e preferência.

Para os jovens que saem do campo para ingressar na universidade, essas diferenças são sentidas na pele, através da discriminação, do preconceito e do menosprezo vindo de outros estudantes e até mesmo de professores universitários de outros cursos. Desde a primeira turma de Licenciatura em Educação do Campo da Universidade Federal de Minas Gerais, estudar representou também um ato de resistência. O indivíduo moderno vive a tormenta da escolha e é por isso que a todo tempo há imposições para esse indivíduo se ajustar ao contexto, extremamente complexo e com poucas oportunidades de diálogo com outras realidades. Nesse contexto percebe-se ações de imitação, de adaptação, pela conformação para se sentir integrado e de confronto interno e externo, em busca de reconhecimento, de aceitação e de empoderamento.

A universidade vista como um espaço social aberto às diversas relações, principalmente no universo juvenil, nos permite lançar o olhar para a sociedade como um todo, uma vez que a universidade é um espaço que a cada dia acolhe mais segmentos e ali reproduz estilos de vida, formas de comportar, recriam condições de viver e estar, constroem e desconstroem paradigmas. Cada vez mais há pessoas em busca de espaço, de afirmação, de construção, um espaço que cotidianamente vem buscando a inclusão de novos atores.

A universidade é um exemplo de espaço onde o passado, o presente e o possível não se separam. Para que a sociabilidade flua para todos os grupos, deve coexistir sem dissociar, a função, a forma e a estrutura, que juntos formam um todo e mantêm independência e autonomia relativas. A fragmentação e a disputa por espaço e poder estão centradas na exacerbação de uma racionalidade que impõe valor de troca pautado no lucro. Identificar as tendências que se pluralizam no contexto universitário é um exercício cotidiano para sair da ignorância do desconhecimento que desencadeiam responsabilidades com a história.

A sociedade pode ir além do campo da reprodução, pode usar seu tempo disponível para criar, perceber e reprocessar, reconstruir, refazer ou inventar algo que o faça sentir prazer nas relações sociais diversas, assim como a arte pressupõe a imaginação e a intuição, uma busca pela utopia onde haja um espaço favorável à felicidade, conquistada através do equilíbrio entre intimidade e distância, a partir da escolha de uma posição intermediária, o espaço privilegiado de percepção. A partir de si dá-se a forma de vida, devendo ser construída de dentro para fora.

  1. 3. Juventude, educação e ambiente politizado

Os jovens de Rio Pardo de Minas e região, juntamente com o sindicato dos trabalhadores e trabalhadoras rurais do município, vêm se organizando a fim de enfrentar os problemas, a crise ambiental e criar alternativas de vida e permanência da juventude no campo por meio da articulação de novas ações, propostas e estratégias de formar e discutir as questões ambientais e dinâmicas territoriais e sociais nas comunidades tradicionais. A politização do ambiente pressupõe tomada de consciência de todos os elementos que permeiam essas situações de crise e conflito.

O ambiente politizado é uma abordagem que estabelece relações de poder que permeiam a interação entre a sociedade e o ambiente, por meio de atores que se envolvem diferentemente nas situações de crises ambientais. Pensar a crise ambiental associada às questões políticas e econômicas ajuda compreender que nem todos são afetados igualmente e nem mesmo os custos e benefícios das crises são distribuídos igualmente. Essa posição desigual reforça ou reduz as desigualdades já existentes e reitera a relação inseparável que há entre as propostas de desenvolvimento com as preocupações ambientais, onde as mudanças nas condições ambientais de alguma forma afeta o parâmetro político e econômico vigente. O ambiente politizado tem relação direta também com a mudança de poder.

O manejo e convívio ambiental das comunidades tradicionais opõe-se ao afã da dominação capitalista que considera a natureza como recurso para a reprodução e acúmulo do capital. Este conflito de significação está na conjuntura e na ação das comunidades tradicionais que indicam, com seu modo de vida, a importância de atribuir novos sentidos ao desenvolvimento desejado, ao desenvolvimento sustentável e endógeno, capaz de conviver com a preservação ambiental. Em Rio Pardo de Minas, a organização política ganha lugar para discutir os problemas que afetam as comunidades e assim reafirmar significados e significações que surgem de sociabilidades cotidianas, de espaços de cultura, de educação e de lazer desses povos.

Da organização das comunidades geraizeiras de Rio Pardo de Minas vê-se ganhos coletivos, lutas comuns com resultados positivos em defesa dos territórios e das práticas tradicionais. Em meio a essas organizações, a juventude vem se articulando, se colocando no debate das comunidades tradicionais, na defesa do território. Um dos caminhos encontrados para discutir e reivindicar melhores condições de vida no campo foi através da educação do campo. A primeira conquista reivindicada pelas comunidades tradicionais do Território da Cidadania do Alto Rio Pardo foi a implantação da Escola Família Agrícola. Outro fato importante é a constatação que de um terço dos estudantes da Licenciatura em Educação do Campo da Universidade Federal de Minas Gerais é composta por estudantes de Rio Pardo de Minas, sem contar a inserção dos jovens nas outras 3 universidades do Estado que oferecem Licenciatura em Educação do Campo (UFTM, UFV, UFVJM). Dessa forma, a juventude tem se organizado e estão dando o tom das pautas reivindicatórias para o segmento na região, que atua conectada com as discussões e propostas das associações e sindicato dos trabalhadores e trabalhadoras rurais do município.

A educação do campo tem representado uma busca de construção de possibilidades voltadas para o avanço na qualidade de vida e garantia de direitos das comunidades campesinas e reconhecimento da necessidade de respeito às especificidades. Para dinamizar as discussões, a juventude de Rio Pardo de Minas que está nas Licenciaturas em Educação do Campo se reúne mensalmente para discutir assuntos comuns, logísticas dos módulos e questões locais. Dessas reuniões, o grupo já realizou dois seminários de Educação do Campo, a fim de ampliar o discurso e promover maior inserção da juventude na temática e nas questões locais das comunidades.

  1. 4. Conclusão

A realidade dos jovens das comunidades tradicionais é permeada por questões locais e globais. De um lado está a globalização, do outro a reafirmação identititária. O processo de globalização impacta a identidade cultural dos povos e comunidades tradicionais, contribuindo para sua desintegração. É diante disso que a comunidade, ao pensar e agir coletivamente vai constituindo sujeitos que constroem uma politização da subjetividade, da identidade e dos processos de identificação. O que está em jogo é o deslocamento político da identidade e as relações de pertencimento e globalização. Esta realidade está em conexão com os processos desenvolvimentistas e de expansão capitalista. A comunidade se desenvolve de acordo com o grau de consciência das lideranças presentes e disponíveis a pautar coletivamente ações de transformação positiva e qualitativa para a vida das pessoas que ali vivem e compartilham dos mesmos ideais e modos de vida.

A escola é um espaço de contribuição para formação identitária, um espaço importante de socialização, por isso, os espaços educacionais devem ser pensados para serem condizentes com a realidade local, voltadas para o empoderamento e construção de cidadania. O discurso do desenvolvimento que chega ao Norte de Minas encontra apoio no Estado, que serve de mediador nesse processo ao intervir comumente de forma favorável para grupos detentores de recursos financeiros e permitindo o controle ambiental. As lutas dos atores de base resultam em articulações para levar ao Estado suas reivindicações e competir com os demais atores na definição de prioridades quando se trata de questões ambientais, de questões de direitos das comunidades tradicionais e de questões referentes aos direitos da juventude do campo. Uma das estratégias pensadas para enfrentar os problemas das comunidades tem sido a inserção política partidária, com lançamento de candidaturas jovens e de representante do sindicato dos trabalhadores e trabalhadoras rurais à prefeitura da cidade. É um exercício de elucidar os usos, importância, dinâmica e funções do ambiente.

Compreender o papel do poder nos conflitos ambientais do Terceiro Mundo é perceber que o poder resulta na vitória do convencimento, primeiramente. As ideias são colocadas para legitimar o triunfo dos interesses de determinado grupo sobre outros, para assimilar as propostas à ideia de bem comum. A complexidade das relações de poder nesse emaranhado de forças e ações de atores diferentes indica que não é possível fixar o controle ou resistir permanentemente. A politização do ambiente pressupõe tomada de consciência de todos os elementos que permeiam essas situações de crise e conflito. Apreciar as formas complexas das interações dos atores nos diversos níveis das questões ambientais coloca o poder no centro da questão como um lembrete de que as relações são desiguais, mas que não estão tácitas ou acabadas em si mesmas. A luta continua e a juventude geraizeira de Rio Pardo de Minas se coloca em movimento.

 

REFERÊNCIAS

 

BRITO, Isabel Cristina Alves de. Geraizeiros em movimento. In: COSTA, João Batista de Almeida; OLIVEIRA, Claudia Luz de. Cerrado, gerais, sertão: comunidades tradicionais nos sertões roseanos. São Paulo: Intermeios; Belo Horizonte: Fapemig; Montes Claros: Unimontes, 2012.

BRYANT, Raymond L. e BAILEY, Sinéad. A politicised environment. In: BRYANT, Raymond L. e BAILEY, Sinéad. Thrid World political ecology. London & New York: Routledge, 1997.

ROUSSEAU, Jean Jacques – Discurso sobre a origem e os fundamentos das desigualdades entre os homens / Jean Jacques Rousseau; [introdução de João Carlos Brum Torres]; tradução de Paulo Neves. – Porto Alegre, RS: L&PM, 2008.

SACHS, Wolfgang (ed.). “Introduction”. In: The development dictionary. A guide to knowledge and power. London: Zed Books, 1996. Traduzido pela editora vozes, 2000.

SCALON, Celi e SANTOS, José Alcides Figueiredo. Desigualdades, classes e estratificação social. In: _______ MARTINS, Carlos Benedito. Horizonte das ciências sociais no Brasil. São Paulo: ANPOCS, 2010.

TUMIN, Melvin M. Estratificação Social. São Paulo: Pioneira, 1970.