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HÁ IDADE PARA OS CONTOS DE FADAS? A LEITURA LITERÁRIA NA ESCOLA
Nanin Loustau Oyambure

##manager.scheduler.building##: Campus Jaguarão
##manager.scheduler.room##: Sala 311
Data: 12-11-2016 08:30 AM – 11:30 AM
Última alteração: 20-10-2016

Resumo


 

HÁ IDADE PARA OS CONTOS DE FADAS? A LEITURA LITERÁRIA NA

ESCOLA

Hay edad para los cuentos de hadas? Lectura Literária en la escuela

Resumo

O presente trabalho apresenta reflexões e aprendizados adquiridos em 2015 mediante o Projeto de Extensão de “Leitura Literária na Escola” cuja finalidade é difundir o hábito da leitura, formar leitores, gerando assim o gosto pela leitura nas crianças, e por sua vez, oportunizando a formação dos estudantes de Pedagogia. As leituras foram realizada durante todo o ano letivo uma vez por semana durante 45 minutos, com crianças do segundo ano da E. E. E. F. Visconde de Souza Soares localizada na Cidade de Pelotas RS/ Brasil. Como metodologia, tratou-se de analisar e discutir mecanismos que contribuíram para desenvolver a mediação Literária na escola. O foco da pesquisa foi avaliar obras literárias indicadas para determinadas faixas etárias, para tal, organizou-se uma questão orientadora: O que difere a Literatura Infantil da Infanto-Juvenil? E quais são os critérios de escolha que devem prevalecer ante os educadores? A partir de registros realizados durante as intervenções, foram selecionados alguns episódios significativos que ocorreram durante as leituras, e o efeito e contribuição que a literatura causou nas crianças, e o impacto da experiência na formação acadêmica.

 

 

Palavras-Chave: Mediação literária, Literatura Infantil, Infanto-Juvenil, critérios de escolha.

 

Resumen

El presente trabajo presenta reflexiones y aprendizajes adquiridos en el año de 2015, mediante el Proyecto de extención de “Lectura Literária en  la Escuela”, cuya finalidade es difundir el hábito de la lectura, formar lectores, despertando el gusto por la lectura en los niños, y a su vez, oportunizar la formación de los estudiantes del profesorado de Pedagogia. Las lecturas  fuéron realizadas durante todo el año lectivo  una vez por semana com duración de 45 minutos, con niños de segundo grado en una Escuela de Educación Primária Pública  “Visconde de Souza Soares” en la ciudad de Pelotas RS/Brasil. Como metodologia, se trató de analizar si las obras se destinan a determinado público de acuerdo a la edad, además, para eso se organizó una cuentión orientadora: ¿Lo que difiere la Literatura Infantil de la literatura Juvenil? ¿ Cuáles son los critérios de elección que deben prevalecer ante los educadores? A partir de los registros realizados, fueron  seleccionados algunos episodios significativos que ocurrieron durante las lecturas, el efecto y contribuición que la literatura ha causado a los niños, y experiencia para la formación académica.

Palabras claves: Mediación literária, Literatura Infantil y juvenil, critérios de elección.

 

 

1. Introdução

No trabalho destacam-se experimentações e aprendizados ocorridos durante o ano letivo de 2015 enquanto a participação no Projeto “Leitura Literária na Escola”. Através de leituras semanais realizadas com crianças de segundo ano em uma escola pública, pode-se investigar o impacto de um grupo de obras entre os pequenos e dimensionar a importância de uma escolha criteriosa do que ler.

O foco da pesquisa foi avaliar se obras literárias indicadas para determinadas faixas etárias se restringem a esse público e, para tal, organizei uma questão orientadora: O que difere a Literatura Infantil da Juvenil? Lajolo (1993) aborda a discrepância de categorias e “subcategorias” literárias que aparecem indicadas em obras literárias e afirma que cabe aos professores o “domínio de linguagem” e o “conhecimento de obras brasileiras, incluindo os clássicos” para que escolhas do que ler sejam feitas. Para Zilberman (1988), a preocupação consiste em apresentar às crianças, obras de “qualidade artística”. Desse modo, os critérios dos educadores devem prevalecer ante os indicados por editoras, uma vez que o livro deve ser eleito não só pela estética, forma, ou apelo publicitário do momento. Para tal é mister levar em conta, de acordo com Góes (1991) “elementos fundamentais como: assunto, faixa etária, valores, informações, ilustrações, ademais de critérios próprios”.

Entre os critérios adotados por especialistas para diferenciar a Literatura Infantil da Juvenil, o mais recorrente é o público a que se destina: leitor iniciante ou leitor mais maduro. É o caso de Coelho (2000). Para a estudiosa, a Literatura Infantil é aquela que requer a presença de mediadores (pais, professores) e é destinada ao “leitor iniciante” que se encontra na faixa etária “entre 6/7 anos de idade”. Já a literatura Infanto-Juvenil – construída a partir de uma linguagem mais densa e menos iconografada – está direcionada a um público “a partir dos 8/9 anos, considerado leitor em processo”. Este já seria um leitor mais autônomo. Bamberger (1977 apud Góes, 1991 p.33) organizou sua classificação a partir de “fases da leitura”, representadas por tipos/gêneros de textos e idades do leitor: 1) Idade dos livros de gravuras: 2 a 5/6 anos, 2) Idade do conto de fadas: 5 a 8/9 anos, 3) Idade da leitura factual: de 9 a 12 anos, 4) Idade da história de aventura: de 12 a 14 ou 15 anos”. No entanto há autores para os quais a linha imaginária entre as esferas literárias são “meramente mercantis” pois, na maioria das vezes, é o mercado editorial que determina o que foi escrito para quem, “com a finalidade de uma leitura de fácil resolução, veloz, superficial e econômica”, essa é a opinião de Chiaretto (2007 pp.237:240)

Um consenso, porém, pode ser encontrado entre os pesquisadores do tema e esse diz respeito ao papel do mediador, um sujeito que transmite mais do que ensina a arte da leitura, de acordo com Petit (2009). Para Todorov (2009) a “literatura tem o poder de libertar o leitor, despertar a capacidade de associação, e impactar o sentido de interpretação simbólica”. Outra opinião consensual é que a escola é um lugar privilegiado para se ingressar neste saber, uma vez que “é o professor que produz o leitor” (ROSA, 2015).

 

2. Metodologia

A experiência de pesquisa se originou em uma intervenção frequente: uma vez por semana por aproximadamente 45 minutos cada e durante cinco meses. O registro do ocorrido primeiro à mão, em um diário, depois digitalmente – constituiu, ao fim do experimento, num “banco” de dados. Neste, as percepções referentes a manifestações das crianças a respeito das leituras realizadas. Escolhidos previamente por deleite pessoal, os livros lidos continham indicações de “Literatura Infantil” e “Literatura Infanto-Juvenil” e foram acionadas alternadamente. Os títulos escolhidos foram: Assim Assado, Listas Fabulosas, Lolo Barnabé, Não Confunda, O feitiço do Sapo, Os problemas da Família Gorgonzola, Pandolfo Bereba, Problemas Boborildos, Travadinhas, Umbigo Indiscreto, Você troca?, Zig Zag, todos de autoria da escritora Eva Furnari. Além desses, li também O Reizinho Mandão, de Ruth Rocha. As obras de escritores estrangeiros foram: Averdadeira história dos três porquinhos, de Jon Scieszka; El Mono Liso, Canción del Pezcador, Pájaro Loco, Así es, La Regadera Misteriosa, de Maria Elena Walsh e A Bruxa Salomé, de Audrey Wood. Para a leitura, os procedimentos foram: a) realização de uma pré-leitura, em que aspectos como capa do livro e paratextos foram explorados; b) leitura da obra, integralmente; c) pós-leitura, em que perguntas em relação ao autor, personagens, texto e desfecho eram incentivadas. Durante a experimentação – através da leitura e do diálogo com as crianças e as trocas com a orientadora da pesquisa – buscou-se compreender se as crianças indicavam inadequação diante de obras consideradas aquém ou além de sua idade/ano escolar, neste caso, crianças entre seis e oito anos de idade.

 

3. Resultados

Ao escolher leituras indicadas como adequadas para uma faixa etária posterior à idade que as crianças efetivamente possuíam, pôde-se constatar que a abordagem possibilitou uma expansão no processo de aprendizagem das crianças: ampliou o vocabulário, estimulou a criticidade, desenvolveu a oralidade e, ainda, oportunizou o conhecimento de gêneros, autores e títulos. Corroborando a ideia de que os critérios de indicação de idade são meros coadjuvantes no processo de conhecimento da literatura, demonstra-se os resultados com as percepções da leitura realizada no dia 19 de maio de 2015. O título escolhido para esse dia foi; Os problemas da família Gorgonzola, de Eva Furnari. Dele, um fragmento: “Neste verão, os Gorgonzolas compraram um barco novo. Animadíssimos, correram para subir na embarcação. Seu Oto pesa 130 quilos, Dona Bárbara, 90 quilos, os três filhos juntos pesam 150 quilos, e o Espinafre, 10 quilos. O fato é que seu Oto esqueceu de ler as instruções e não viu que o peso máximo que o barco suportava era 350 quilos. Será que o barco da família Gorgonzola afundou?” (FURNARI, 2014, p.4, 5). As crianças responderam unânimes: – O barco não afundou! Em outro capítulo, os personagens foram jantar em uma pizzaria e pediram três pizzas de diferentes sabores. A questão colocada pela autora foi: “Cada pizza custava R$ 10,00. Pífio e Porfírio dividiram a conta ao meio. Quanto gastou cada um?” (FURNAI 2014, p.14). As crianças foram categóricas e responderam rapidamente “Cada um gastou quinze reais!” Em outra passagem, um dos personagens era seu Franzino, o avô gagá, que, no Natal, vestia-se de coelho e entregava ovos de Páscoa. “A cada ano ele leva 6 ovos para a família. Quantos ovos seu Franzino levou nos últimos 10 Natais?” (FURNAI 2014, p.22). Uma das crianças respondeu: - Acho que ele levou uns 100 ovos, ele era caduco! As respostas indicam um comportamento além do esperado entre crianças tão pequenas que ainda não aprenderam a multiplicar e dividir, por exemplo. Mesmo não sabendo resolver matematicamente, expressavam entendimento do exagero de Furnari e “inventavam” solução. Assim, divertiam-se e desfrutaram da leitura e revelavam que esta poderia sim ser conhecida por eles, apesar do selo de indicação para faixa etária mais elevada. Diante de uma narrativa mais longa e complexa, de linguagem mais elaborada – Pandolfo Bereba, de Eva Furnari, lida no dia 26 de maio – a criticidade e o senso de justiça das crianças aflorou: por ser um príncipe muito rigoroso com os candidatos a amigos dando-lhes notas sempre abaixo de 6, Pandolfo, o personagem de Eva, foi vaiado pelas crianças.

 

 

 

 

 

4. Conclusões

 

A primeira conclusão refere-se aos efeitos do experimento de como a mediação leitura literária é conduzida oferecendo– suporte e entendimento sobre a essência e importância da literatura na vida dos pequenos leitores/ouvintes – além de recursos para conduzir as crianças ao universo literário. Compreende-se que embora em processo de experiência com relação à mediação literária, os questionamentos surgiram de reflexões contínuas, consequência do processo de aprendizado. O acesso a um poderoso acervo, atualmente abrigado na Sala de Leitura Érico Veríssimo, oportunizou ampliar conhecimentos acerca de obras de Literatura Infanto-Juvenil além de saberes sobre autores e gêneros.

Acredita-se que este suporte teórico e metodológico alavancou minha formação docente. Penso que ser um mediador Literário é também ser um representante da Literatura em suas mais amplas dimensões, pois o mediador tem a responsabilidade de anunciar/apresentar/convidar o leitor, a um novo universo, bem como, conduzi-lo, suscitar o gosto e regozijo de ler e ouvir histórias. Com relação às crianças, constatei que podem e devem transitar livremente entre as obras, ignorando a linha imaginária que lhes tem sido imposta pelo mercado editorial. Ao romper com a dicotomia literatura infantil/juvenil, rompem também com os impedimentos de acessar literatura supostamente escrita para leitores mais maduros. O argumento que utilizo é que a literatura liberta-nos, desapropria a responsabilidade do acerto por se tratar de arte ficcional.

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CHIARETTO, M. A leitura literária diante da visão moderna de progresso. In: PAIVA,A. et al (Orgs.) Leitura e Letramento: espaços, suportes e interfaces. O Jogo do Livro. Belo Horizonte: Autêntica/CEALE/FaE/UFMG, 2007.

COELHO, N. Literatura infantil. Teoria, Análise, Didática. São Paulo, Moderna:2000.

FURNARI, E. Os problemas da família Gorgonzola. São Paulo: Global, 2004.

GÓES, L. Introdução à Literatura Infantil e Juvenil. São Paulo: Pioneira, 1991.

LAJOLO, M. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. São Paulo: Ática: 1993.

 

PAIVA, A. et al.(org.). Literatura e Letramento: Espaços, Suportes e interfaces.

O Jogo do Livro. Belo Horizonte: Autêntica/CEALE/FaE/UFMG, 2007.

PETIT, M. A arte de ler ou como resistir à adversidade. São Paulo: Editora 34,2009.

ROSA, Cristina. Leitura e Bobagens. Blog Alfabeto à parte. Disponível em:

http://crisalfabetoaparte.blogspot.com.br/2016/02/leitura-e-bobagens.html

ROSA, Cristina. Original e Reconto: uma sequência didática. Blog Alfabeto à parte.

Disponível em: http://crisalfabetoaparte.blogspot.com.br/2015/10/original-erecontouma-sequencia.html

TODOROV, T. A Literatura em Perigo. Rio de Janeiro: Difel, 2009.

ZILBERMAN, R. A leitura e o Ensino da Literatura. São Paulo: Contexto, 1988.