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AUTORES, TÍTULOS E GÊNEROS: A LITERATURA DO PNAIC
Erica Machado Leopoldo, Cristina Maria Rosa

##manager.scheduler.building##: Campus Jaguarão
##manager.scheduler.room##: Sala 311
Data: 11-11-2016 08:00 AM – 11:30 AM
Última alteração: 20-10-2016

Resumo


AUTORES, TÍTULOS E GÊNEROS: A LITERATURA DO PNAIC

Autores, títulos y género: La literatura del PNAIC


Resumo

Integrando uma recente política de governo, o PNAIC – Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa – a literatura foi escolhida para agregar valor a processos de alfabetização nas escolas brasileiras. No trabalho, evidencio o olhar que dediquei ao grupo de 75 livros indicados para o uso nas salas de aula do 1º ao 3º ano. Lido, está sendo categorizado pela variedade textual, temática e gráfica. Para catalogar as obras, defini categorias amplas – gêneros, títulos e autores. Informações conexas (ilustradores, temas, qualidade gráfica e editorial) passaram a fazer parte de meu interesse por descrevê-los. O primeiro dos resultados entre um pequeno grupo selecionado aleatoriamente indicou que existe variedade de gêneros e híbridos no acervo. Na amostra lida (15 obras), há oito textos em prosa (53, 33% ). Os demais são textos em verso – quatro poemas, duas Adivinhas e um trava-língua. Hibridismo e paradidatismo também ocorrem e seus autores são na maioria (80%) brasileiros. A preponderância da linguagem narrativa não impede que exista variedade textual no grupo de livros. Por fim, ao revelar o instigante que foi aprofundar os estudos sobre um acervo complementar, indico a continuidade da pesquisa como forma de compor um olhar abrangente sobre o mesmo.

Palavras-Chave: Autores, Gênero, Literatura Infantojuvenil, PNAIC.

Resumen

Integrando una reciente política de gobierno, el PNAIC – Pacto Nacional por la Alfabetización en la edad correspondiente – la literatura fué escogida para agregar valor al proceso de alfabetización en la escuelas brasileñas. En el trabajo dedico una mirada hacia un grupo de 75 libros indicados para la utilización en clases, de 1º al 3º grado en Escuelas Primárias Públicas. Después de leidos, son clasificados por su variedade textual, tema y escrita Para catalogar dichas obras, defino categorías amplas: géneros, títulos y autores. Las informaciones están conectadas (ilustradores, temas, calidad gráfica y editorial) y pasaron a formar parte de mi interés en describirlas. El primer resultado entre un pequeño grupo seleccionado aleatoriamente indícan que existe variedad de géneros en la colección. Entre las quince obras leídas, existen ocho escritos en prosa (53,33%). Los demás son escritos en versos: cuatro poemas, dos de adivinazas y uno de trava-lengua. Los escritos híbridos y paradidácticos también ocurren y los autores son, em su mayoria, brasileños. El predomínio del lenguaje en forma narrativa no impede que exista una variedad de géneros textuales en la colección de libros. Indico al fin, la continuidad de este estúdio.

Palabras claves: Autores, Género, Literatura Infanto y juvenil, PNAIC.

1. Introdução

No Brasil, são as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental de 9 Anos que estabelecem o processo de alfabetização e o letramento em três anos iniciais do ensino fundamental. Este ciclo de alfabetização visa à inserção da criança na cultura escolar assegurando a alfabetização e o letramento, e, assim, à aprendizagem da leitura e da escrita, além da ampliação das capacidades de produção e compreensão de textos orais em situações familiares e não familiares e à ampliação do seu universo de referências culturais nas diferentes áreas do conhecimento. Ao lançar o PNAIC – uma política para enfrentar o não sucesso no campo da alfabetização entre as crianças brasileiras – o governo federal criou um programa para “mobilizar esforços e recursos na valorização dos professores e das escolas”, apoiar o trabalho pedagógico através da oferta de “materiais didáticos de qualidade para todas as crianças do ciclo de alfabetização”. O intuito era “alfabetizar todas as crianças até oito anos de idade” (http://portal.mec.gov.br/pnld/pnld-pnaic).

A pesquisa aqui expressa surgiu do contato com os livros que, integrados ao PNAIC, chegaram à escola onde trabalho. Intenciono analisar a qualidade textual, temática e gráfica de um grupo de livros possuidores do selo “Para o uso nas salas de aula do 1º ao 3º ano” enfeixados em caixas para o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa. Anunciada em junho de 2013 como um “reforço” na “principal etapa da aprendizagem” a primeira remessa de obras literárias para as salas de aula foi de 75 títulos organizados em três acervos. Pensado para dar às crianças a oportunidade de “manusear, explorar, com ou sem a ajuda do professor o mundo dos livros” e oportunizar um contato com a “linguagem, a imaginação e a fantasia” peculiares desse universo da ficção (BRASIL, 2012), o acervo foi composto com obras aprovados no PNBE 2012. Para Junqueira, Silva e Ariosi (2016), os baixos índices de competência em leitura das crianças brasileiras intensificam a preocupação de diversas instâncias a respeito da promoção de leitura no Brasil. Assim, é pertinente que se busque conhecer quais são e como se podem utilizar as obras durante o período de alfabetização infantil. Mas o que é a leitura? E a leitura literária?

A leitura tem, entre intelectuais e estudiosos no mundo todo, importância ímpar. Para Manguel (1997, p. 200), “somos o que lemos” e para Todorov (2012, p. 76), a literatura pode “nos tornar ainda mais próximos dos outros seres humanos que nos cercam, nos fazer compreender melhor o mundo e nos ajudar a viver”. Para Candido (1995, p. 3), a literatura consiste em “todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os níveis de cultura, desde o que chamamos folclore, lenda, chiste, até as formas mais complexas e difíceis da produção escrita das grandes civilizações”. Para Zilberman (2003, p. 30) literário é o texto que possui qualidade estética e valor artístico, ou seja, aquela obra que, recusando cumprir uma missão pedagógica, “aponta a um conhecimento de mundo” e apresenta-se “como o elemento propulsor que levará a escola à ruptura com a educação contraditória e tradicional”.

Ao pesquisar a leitura, sua história e importância no Brasil, Silva (2002, p. 42-43), informa que a leitura é uma “atividade essencial a qualquer área do conhecimento e mais essencial ainda à vida do ser humano”. Intimamente ligada ao sucesso do “ser que aprende” a leitura possibilita “a aquisição de diferentes pontos de vista e alargamento de experiências” e parece ser “o único meio de desenvolver a originalidade e autenticidade dos seres que aprendem”.

A leitura já foi considerada “uma atividade mecânica de decodificar palavras, ou de extrair sentidos que supostamente estariam prontos no texto”, de acordo com Bicalho (2014, p. 167). Acreditava-se que, para se tornar um leitor competente, “bastava aprender a ler nos anos iniciais de escolaridade e depois o aluno já saberia ler qualquer texto”. Atividade complexa, em que o leitor “produz sentidos a partir das relações que estabelece entre as informações do texto e seus conhecimentos”, a leitura “não é apenas decodificação” e prescinde de compreensão que tornará o leitor “capaz de apreciar”, “se posicionar” e “realizar a crítica ao que é dito”. Atividade cognitiva e social, a leitura “pressupõe que, quando as pessoas leem, estão executando uma série de operações mentais” além de utilizarem “estratégias que as ajudam a ler com mais eficiência”.

Ao referir-se à formação do leitor, Zilberman (2003, p. 30) diz que a legitimidade do uso da literatura na sala de aula vem tanto “da relação que estabelece com seu leitor, convertendo-o num ser crítico perante a sua circunstância” quanto “do papel transformador que pode exercer dentro do ensino, trazendo-o para a realidade do estudante”. É na interação entre autor e seu leitor que a leitura realiza sua função social, pois ninguém escreve para não ser lido. Estes dois sujeitos interagem “dentro de condições muito específicas de comunicação”, pois escritor e leitor “tem seus próprios objetivos, suas expectativas e seus conhecimentos de mundo”, de acordo com Bicalho (2014).

Para Paulino (2014, p. 177) há, quando da leitura, um “pacto entre leitor e texto” que “inclui, necessariamente, a dimensão imaginária, em que se destaca a linguagem como foco de atenção, pois através dela se inventam outros mundos, em que nascem seres diversos, com suas ações, pensamentos, emoções”. A pesquisadora argumenta que a leitura literária constitui “uma prática capaz de questionar o mundo já organizado, propondo outras direções de vida e de convivência cultural” e conclui afirmando que leitura alguma “sobrevive bem como prática cultural, quando censurada ou tolhida por autoridades do Estado, da família ou da escola”. Para Rosa (2016), “a matéria-prima do poeta é a emoção e suas ferramentas são as palavras. Como um escultor que extrai de um bloco a forma sonhada, o poeta pode transgredir as normas: da gramática, do léxico”, ofertando assim, uma variedade de possibilidades de uso de nossa língua, especialmente quando se trata da escrita literária.

2. Metodologia

Tendo como foco a variedade/qualidade textual, temática e gráfica do primeiro acervo destinado ao PNAIC em 2013, no recorte apresento um grupo de livros (quinze) escolhidos aleatoriamente e sobre o qual deitei o meu primeiro olhar. Os procedimentos partiram de categorias amplas – gêneros, títulos e autores. Logo depois, ilustradores, temas, quantidade de páginas, qualidade gráfica e editorial, origem e formação dos autores e ilustradores integraram o grupo de critérios utilizados para descrevê-los. Para organizar a coleta, criei um roteiro que se constituiu dos seguintes passos: a) definição do acervo; b) leitura exploratória de cada um dos exemplares; c) leitura organizada a partir dos critérios de gênero literário, título, autor, inicialmente; d) organização de um quadro com as características estudadas e acréscimos de outras para um estudo mais aprofundado posteriormente; e) escrita das conclusões.

3. Resultados e discussões

De acordo com PAIVA (2016), as primeiras obras que compuseram os acervos para o PNAIC 2013 foram selecionadas entre as que integraram o Programa Nacional Biblioteca da Escola Educação Infantil/Anos Iniciais do Ensino Fundamental em 2012. Bastante diversificadas do ponto de vista temático, de gênero e formato, foram inscritas via edital e selecionadas para integrar bibliotecas de escolas públicas em todo o país. Observando o edital verifica-se que “são três as etapas da seleção: a triagem, a avaliação pedagógica e a compra das obras”, de acordo com PAIVA e COSSON (2014). A triagem refere-se à adequação da obra aos gêneros literários previstos no edital. No entanto, para os pesquisadores, “qualquer estudante de Letras percebe que a classificação dos gêneros adotada pelo MEC é inadequada, pois mistura elementos de ordem diversa em categorizações superpostas”. Concluem afirmando que “os termos são tão genéricos que pouco discriminam” e “não surpreende, portanto, que os editores se percam nessas classificações e as obras sejam inscritas quase que independentemente do disposto no edital” (PAIVA e COSSON, 2014, p. 487-488).

Ao iniciar a análise das obras percebi que há variedade de gêneros e, mesmo, gêneros híbridos (ROSA, 2016) no acervo que integra as caixas do PNAIC. Observando esta pequena amostra – quinze títulos ou 20% das obras do acervo literário PNAIC 2013 – encontrei oito textos em prosa (A árvore generosa, de Shel Silverstein; A compoteira, de Celso Cisto; Feminina de menina, masculino de menino, de Márcia Leite, Lino, de André Neves; Mamãe, por que os dinossauros não vão à escola?, de Quentin Gréban; O livro estreito, de Caulos; Pedro: O menino que tinha o coração cheio de domingo, de Bartolomeu Campos de Queirós e Vizinho, Vizinha, de Roger Melo), equivalendo a 53, 33% da amostra. Os demais são textos em verso, sendo quatro poemas (É tudo invenção, de Ricardo Silvestrin, Dezenove poemas desengonçados, de Ricardo Azevedo, Tem um monstro no meu jardim, de Janaina Tokitaka e Ode a uma estrela, de Pablo Neruda), duas Adivinhas (O que é que não é?, de Cezar Cardozo e Dez sacizinhos, de Tatiana Belinky) e um trava-língua (A casa das dez Furunfunfelhas, de Lenice Gomes). O hibridismo – texto com aspecto de um gênero, mas construído em outro – ocorre, preponderantemente em Os dez sacizinhos. A presença de paradidatismo – ensinamentos morais ou éticos em linguagem literária – ocorre em Feminina de menina, masculino de menino e Vizinho vizinha. Em relação à nacionalidade, a maior parte (80%) dos autores desta amostra são brasileiros.

4. Conclusões

O Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa foi desenvolvido pelo MEC em parceria com governos estaduais e municipais. Teve por objetivo assegurar a alfabetização – ensinar o sistema de escrita alfabética inserindo a criança em práticas de letramento – de todas as crianças nos três primeiros anos do Ensino Fundamental. Além da formação dos professores alfabetizadores, o PNAIC enfeixou e distribuiu acervos literários às escolas e investiu na formação de mediadores da leitura deleite. Nossas conclusões iniciais indicam que, do acervo inicialmente lido/categorizado, parte significativa representa a linguagem narrativa – textos em prosa ou pequenas histórias – e não há entre estes nenhum clássico. A outra parte é composta por textos em verso – poema, quadra, parlenda, cantiga, trava-língua, adivinha - o que é bastante interessante, uma vez que a leitura de poesia é bastante acessível a crianças, professores e mediadores. Outra das conclusões é que há inadequação quanto à classificação dos gêneros adotada pelo MEC, que mistura elementos de ordem diversa em categorizações superpostas. É o caso, por exemplo, da distinção genérica de texto em prosa e texto em verso (Edital do PNBE de 2012) supostamente para recobrir os gêneros do registro poético e os gêneros do registro narrativo do discurso literário ou, ainda, a divisão entre poesia e ficção. No entanto, essa “inadequação” incentiva-me a um olhar criterioso no tratamento dos demais dados.



Referências

BICALHO, D. Leitura. Glossário CEALE. Belo Horizonte: UFMG/CEALE, 2014.

BRASIL. MEC. Secretaria de Educação Básica. Acervos complementares: alfabetização e letramento nas diferentes áreas do conhecimento / Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica. -- Brasília: A Secretaria, 2012. Acessado em 29 mai. 2016. Online. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/

CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: Vários Escritos. São Paulo: Duas Cidades, 1995.

MANGUEL, A. Uma história da leitura. São Paulo: Cia das Letras, 1997.

PAIVA, A. Critérios de escolha de obras para o PNAIC. Aparecida Paiva: inédito, Pelotas, 2016. Entrevista online concedida a Cristina Maria Rosa em 20/07/2016.

PAIVA, A. e COSSON, R. O PNBE, a literatura e o endereçamento escolar. In: Remate de Males. 34.2 Campinas-SP, (34.2): pp. 477- 499, Jul./Dez. 2014.

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